Longa-metragem independente de Capucci Junior, realizado com uma pequena equipe e recursos limitados, é remasterizado, conquista prêmios no exterior e leva a cultura mineira ao público internacional.
Algumas histórias levam anos para encontrar seu público. Outras precisam apenas de uma segunda oportunidade. É o caso de Segredos do Porão, longa-metragem independente de suspense policial dirigido por Capucci Junior, que, quase duas décadas depois de sua realização, voltou a ganhar destaque no cenário cinematográfico internacional, conquistando seleções oficiais, premiações e espaço no catálogo de um canal norte-americano.
Mas a história desse filme começa muito antes das câmeras serem ligadas. E, curiosamente, começa com uma homenagem que seu protagonista da vida real nunca chegou a conhecer.
Um roteiro que nasceu de uma homenagem ao pai
Em 2005, Capucci Junior escreveu um roteiro originalmente concebido como um curta-metragem dramático, intitulado Ecos da Solidão. O projeto tinha uma motivação muito especial: seria uma homenagem ao seu pai, Ilidio Capucci, que atravessava naquele período um delicado momento de saúde.
A ideia era preparar uma surpresa para o pai. Capucci escreveu o roteiro, mas não conseguiu reunir os recursos necessários para realizar a produção. Em outubro de 2006, Ilidio faleceu, sem chegar a conhecer a história que o filho havia escrito em sua homenagem. Um ano depois, em 2007, uma oportunidade mudou o destino daquele projeto. Capucci Junior conheceu Douglas Lins, professor de teatro que mantinha contato com diversos atores. Os dois perceberam que poderiam finalmente tirar a ideia do papel.
A proposta inicial, entretanto, ganhou novas dimensões. O curta-metragem dramático foi reformulado e transformado em um longa-metragem de suspense policial, com aproximadamente 90 minutos de duração. Nascia Segredos do Porão.
Uma homenagem que atravessou gerações e entrou para a história do filme
A homenagem a Ilidio Capucci acabou se tornando ainda mais significativa durante a construção da narrativa. O pai do diretor recebeu uma homenagem póstuma por meio do personagem Vitório, nome que também pertencia ao avô de Ilidio Capucci. Sua presença aparece simbolicamente nos porta-retratos que compõem os cenários do filme, mas não se limita a um detalhe visual.
Vitório está diretamente ligado ao grande mistério que conduz a história: ele representa o grande amor do passado de Dona Helena, personagem interpretada por Ilza Gonçalves, e sua trajetória constitui uma das peças fundamentais do enigma que sustenta a trama.
Dessa maneira, a homenagem que originalmente seria uma surpresa de um filho para seu pai acabou incorporada à própria história do filme. Ilidio, que não chegou a conhecer o roteiro, passou a fazer parte da obra de maneira permanente. É um detalhe que confere a Segredos do Porão uma dimensão afetiva que vai muito além da ficção: uma história sobre memória, amor e mistérios que também preserva a lembrança de uma família.
Cinema feito com criatividade, coragem e poucos recursos
A produção foi um verdadeiro exercício de criatividade e superação. Centenas de testes foram realizados até que os atores principais fossem escolhidos. Por trás das câmeras, uma pequena equipe familiar assumiu praticamente todas as etapas da realização.
Capucci Junior acumulou funções: roteirista, diretor, cinegrafista, diretor de fotografia, editor de imagem, editor de áudio e responsável pela pós-produção. Douglas Lins participou da direção artística e da preparação do elenco, além de interpretar o enigmático delegado Alberto Zanetti. Luiz Roberto Capucci, irmão do diretor, assumiu a produção executiva,mas sua participação foi muito além da gestão. Também colaborou com instalações elétricas, iluminação, cenografia, transporte, alimentação e captação de recursos. Filipe Oliveira, cunhado de Capucci, trabalhou com iluminação, cenografia, câmera e captação de áudio. Augusto Capucci, sobrinho do diretor, também esteve presente, auxiliando em diferentes funções.
Era um grupo de sonhadores colocando em prática conhecimentos adquiridos na faculdade, experiências profissionais e, sobretudo, a vontade de fazer cinema. Tudo isso com o mínimo de equipamentos possível e a disposição de encontrar soluções para os desafios que surgiam durante as filmagens.
Um elenco que precisou ir além da própria idade
A escolha do elenco também trouxe desafios interessantes. Aline Raposo, que na época tinha apenas 20 anos, interpretou uma personagem que precisava aparentar aproximadamente 25. Luiz Barros, então com 19 anos, também precisou convencer o público de que seu personagem Beto tinha cerca de 30 anos.
A solução veio por meio da interpretação, da entonação, da caracterização e de escolhas cuidadosas de figurino. Ilza Gonçalves enfrentou um desafio semelhante, precisando representar uma personagem cerca de 30 anos mais velha que sua idade real.
Gilberto Avelar deu vida ao Tio Afonso, personagem que acrescentou uma presença marcante à atmosfera de suspense da trama. O ator faleceu recentemente, deixando também sua contribuição registrada nessa obra. Douglas Lins completou o elenco principal interpretando o estranho delegado Alberto Zanetti, uma figura que ajuda a construir o clima de mistério que permeia a narrativa.
Uma obra que voltou quase vinte anos depois
Na época de seu lançamento, Segredos do Porão teve boa aceitação e chegou ao circuito de locadoras, em um período em que o consumo de filmes ainda passava fortemente pelas mídias físicas. Após sua circulação até 2009, o longa deixou de ser exibido. Por questões técnicas e por acreditar que a obra já havia cumprido seu papel naquele momento, o diretor não deu continuidade à sua distribuição.
Mas algumas histórias não terminam quando deixam de ser exibidas. No final de 2025, Capucci Junior decidiu assistir novamente ao filme. A experiência despertou uma percepção diferente: aquela produção, realizada com tantas limitações, ainda tinha algo a oferecer e merecia ser conhecida por uma nova geração.
Começou então um trabalho de recuperação e remasterização da imagem e da trilha sonora. Com uma nova apresentação técnica, o longa foi inscrito em festivais no Brasil e no exterior.
A resposta superou as expectativas
Produzido originalmente há quase 20 anos, Segredos do Porão passou a conquistar espaço em importantes mostras e festivais internacionais, recebendo seleções oficiais no Reino Unido e na Argentina. Entre as participações estão diferentes edições do Filmmaker Sessions, incluindo os volumes 9, 10 e 12, além do First Time Filmmaker Sessions Volume 13, do HorrorHound TV e do Festival de Cine Com Riesgo, na Argentina.
Entre os reconhecimentos mais expressivos estão duas importantes conquistas no Reino Unido. O filme recebeu o prêmio *Audience Choice Winner*, concedido pelo Filmmaker Sessions Volume 9, uma distinção que representa o reconhecimento direto do público. Também foi vencedor no *HorrorHound TV*, passando a integrar o catálogo oficial de filmes do canal nos Estados Unidos. Além disso, foi anunciado como finalista para o circuito de cinema de suspense previsto para janeiro de 2027.
Para uma produção realizada de forma independente, com recursos limitados e quase duas décadas antes de alcançar esse novo circuito, os resultados representam uma conquista especialmente significativa.
Sete Lagoas na tela e no olhar do mundo
Mais do que uma produção de suspense, Segredos do Porão carrega a identidade de sua origem. O filme preserva em sua essência características muito próprias de Sete Lagoas e de Minas Gerais: os casarões, os cenários, os sotaques, a música, os costumes e a maneira particular de contar histórias. É justamente essa identidade que torna a trajetória internacional do filme ainda mais significativa.
Uma produção independente, realizada com estrutura limitada e com uma equipe essencialmente familiar, conseguiu despertar o interesse de públicos e avaliadores de outros países, levando um pouco da cultura mineira para além das fronteiras brasileiras.
O longa também representa um registro de uma época, preservando espaços, características arquitetônicas e elementos culturais da cidade que fazem parte da memória de seus moradores.É uma demonstração de que o cinema produzido fora dos grandes centros também tem histórias capazes de atravessar fronteiras.
Um agradecimento a quem acreditou no projeto
A Capucci PRO faz questão de reconhecer e agradecer a todas as pessoas que contribuíram para tornar o filme possível.
Desde aqueles que participaram diretamente das filmagens até os que ajudaram com combustível, figurinos, alimentação, composição de cenas e liberação de espaços para as gravações.
Um agradecimento especial aos responsáveis pelas locações que acolheram a produção, entre elas o Cemitério Santa Helena, o Casarão Nhô-Quim Drummond, o Hotel Fazenda Casa Grande e o Maquiné Park Hotel.
A produtora também registra sua gratidão à Revista Fanzini e aos profissionais de toda a imprensa que, ao longo dos anos, ajudaram a divulgar e valorizar o trabalho audiovisual realizado na região.
Quase vinte anos depois, uma nova história começa
Para Capucci Junior, revisitar Segredos do Porão foi reencontrar não apenas um filme, mas uma parte importante de sua própria trajetória como realizador. Uma obra que nasceu de uma homenagem familiar, ganhou vida pelas mãos de amigos e parentes, registrou um pouco da identidade de Sete Lagoas e, quase vinte anos depois, encontrou novos espectadores pelo mundo. O que começou como um roteiro escrito em 2005, sem recursos para ser filmado, transformou-se em um longa-metragem, atravessou gerações e agora conquista reconhecimento internacional. Talvez essa seja a maior surpresa de Segredos do Porão: descobrir que uma história produzida com tão poucos recursos pode continuar viva, despertando curiosidade, emoção e interesse tantos anos depois. E que, mesmo quando o tempo passa, algumas histórias — e algumas homenagens — nunca deixam de encontrar seu caminho.
*CAPUCCI PRO – Produção Cinematográfica*
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