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Filhos de diferentes relacionamentos: como fica a herança?

COLUNA: ESCOLHAS QUE PROTEGEM

Uma família pode ser construída de muitas formas. Mas, quando chega a hora de falar sobre herança, algumas escolhas feitas durante a vida podem fazer toda a diferença.

Imagine a seguinte situação: um homem se casou, teve filhos, anos depois se separou e constituiu uma nova família. No segundo casamento, teve outros filhos, adquiriu imóveis, construiu uma empresa e formou um novo patrimônio.

Durante a vida, tudo funciona bem. Cada filho segue seu caminho, as famílias convivem como podem e ninguém gosta de falar sobre o que acontecerá depois.

Até que um dia surge a pergunta que ninguém queria fazer:

“Quando ele não estiver mais aqui, como tudo isso será dividido?”

É nesse momento que questões que pareciam distantes passam a fazer parte da rotina da família: quem terá direito aos imóveis? O cônjuge participa da sucessão? Os filhos dos diferentes relacionamentos terão os mesmos direitos? E se um dos imóveis ainda estiver irregular? E se houver uma empresa? E se um dos herdeiros não concordar com a divisão?

A existência de filhos de relacionamentos diferentes, por si só, não significa que haverá conflito. Mas, quanto mais complexa é a composição familiar e quanto maior é a quantidade de bens envolvidos, mais importante se torna conhecer as regras e organizar a sucessão com antecedência e planejamento.

Todos os filhos têm direito à herança?

De maneira geral, os filhos possuem igualdade de direitos na sucessão, independentemente de serem filhos do primeiro, segundo ou terceiro casamento.

Mas a sucessão não envolve apenas os filhos. Dependendo do regime de bens e da situação familiar, o cônjuge ou companheiro também poderá ter direitos sucessórios, e a composição da herança precisa ser analisada de acordo com as circunstâncias de cada família.

Por isso, aquela ideia de que “quando eu morrer, meus filhos simplesmente dividirão tudo igualmente” pode ser muito mais complexa do que parece. Até porque, como fica a participação do cônjuge atual?

E se durante a vida eu já dei um imóvel para um dos filhos?

Essa também é uma situação bastante comum.

Pais que desejam ajudar um filho a comprar uma casa, iniciar um negócio ou construir sua própria vida podem realizar doações ainda em vida. Mas uma doação não deve ser feita apenas com base na vontade do momento, e muitos menos por meio de contrato, há um procedimento jurídico correto a seguir.

É preciso avaliar a origem e o valor dos bens, os demais herdeiros, os limites legais da doação, os efeitos tributários e, principalmente, como aquela decisão poderá repercutir futuramente na sucessão.

Uma escolha feita para ajudar hoje não deveria se transformar em um problema para a família amanhã.

E os imóveis?

Aqui existe outro ponto que muitas famílias descobrem tarde demais.

Não basta saber quem são os herdeiros. É preciso saber o que efetivamente será transmitido.

Um imóvel comprado há décadas apenas com contrato particular, uma construção que nunca foi averbada, uma área que não corresponde ao que consta na matrícula ou uma propriedade que ainda está registrada em nome de uma pessoa falecida podem tornar a sucessão muito mais complicada.

Em outras palavras: não adianta planejar a divisão de um imóvel se a própria situação jurídica desse imóvel não está organizada.

Regularizar os imóveis enquanto a família ainda pode reunir documentos, esclarecer informações e tomar decisões pode evitar obstáculos durante o inventário.

Planejar não significa escolher um filho em detrimento do outro

Esse talvez seja um dos maiores equívocos quando falamos de planejamento sucessório.

Planejar a sucessão não significa simplesmente decidir “quem ficará com o quê”.

Significa compreender as regras, conhecer a realidade da família, organizar os bens e utilizar, dentro dos limites legais, os instrumentos disponíveis para reduzir incertezas e evitar que decisões importantes sejam tomadas somente depois da morte.

Testamento, doação, usufruto, organização societária e outras ferramentas podem fazer parte desse planejamento, mas cada família precisa de uma análise própria.

O melhor momento para conversar sobre isso não é quando o problema aparece

Falar sobre sucessão pode parecer desconfortável. Para muitas famílias, falar sobre morte ainda é um assunto evitado.

Mas planejamento sucessório não é sobre esperar a morte.

É sobre organizar a vida enquanto ela acontece.

É garantir que os documentos estejam em ordem, que os imóveis estejam regularizados, que as escolhas sejam feitas com consciência e que a família tenha clareza sobre aquilo que pode ou não ser feito.

Porque, quando existe uma família formada por diferentes histórias, relacionamentos e gerações, deixar tudo para depois pode significar entregar aos herdeiros não apenas bens, mas também dúvidas, documentos incompletos e decisões difíceis.

Escolhas que protegem

Não existe uma fórmula única para todas as famílias.

Existe o planejamento adequado para cada realidade.

E talvez uma das escolhas mais importantes seja justamente aquela que ninguém gosta de fazer: olhar hoje para aquilo que um dia precisará ser resolvido.

Porque organizar enquanto todos estão presentes, com assessoria jurídica especializada na área, é muito diferente de tentar reconstruir uma história familiar quando alguém já não pode mais participar dela. Nada de deixar para depois, de amadorismo, ou de forma que legalmente não é possível.

Escolhas feitas em vida podem evitar conflitos depois.

Por Camila Lopes

Advogada, Especialista em Proteção Patrimonial

@camila.lopesadvogada

 

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